Descrição:

As ruínas
do agregado populacional compreendem uma área
habitacional, um balneário, 4 zonas de enterramento, um
núcleo religioso, além de vários núcleos industriais.
Ruínas de edifícios de habitação, de r/c. e r/c. e 1º
andar, formando quarteirões separados por ruelas,
algumas luxuosas com mosaicos em "opus vermiculatum",
estuques com pintura a fresco; balneário - com
vestíbulo, "frigidarium", "tepidarium" e "caldarium"
sobre "hipocaustum", piscinas e sala de ginástica;
vestígios de mosaicos em "opus vermiculatum" numa das
piscinas; necrópoles de tipologia diversa: sepulturas
sobrepostas numa altura de 7 m (margem da Caldeira),
sepultura de incineração de Galla, mausoléu de planta
quadrada com nichos abertos nas paredes, para guardar
urnas cinerárias, sepulturas de superestrutura
quadrangular (junto à basílica); basílica paleo-cristã -
com 2 partes distintas: a nave (22,5 x 13 m.), com
vestígios de 8 bases de colunas e de arranques de
arcadas transversais, a ábside, a O., com pavimento mais
elevado, paredes estucadas e pintadas a fresco, com
marmoreados, elementos geométricos e emblemáticos;
cetárias - grande número de tanques de salga
rectangulares e quadrangulares, contíguos, forrados em
"opus signinum" e sem comunicação, com poços de boca
circular nas proximidades, para fornecer àgua para a
salmoura.

Utilização Inicial:
Residencial, industrial
Época de Construção:
Séc. 1 / 6
Cronologia:
Séc. 1 -
início da ocupação, que se prolongou até inícios do séc.
6, por povo luso-romano cuja principal actividade era a
pesca, o fabrico e a exportação de conservas de peixe. A
submersão de parte da povoação terá sido motivada por um
fenómeno de transgressão marinha (fenómeno inicial de
afundamento seguido de levantamento já com sedimentos),
associado a vagas sísmicas e à acção erosiva do Sado
(SILVA, 1966).
Tipologia:
Romano,
paleo-cristão. Aglomerado construído em função da
actividade conserveira, com inúmeros vestígios de
cetárias, além do equipamento urbano característico dos
povoados luso-romanos: habitações, termas, necrópole,
columbário, basílica de 4 naves, com frescos de
inspiração paleo-cristã, que se aproximam de outros em
igrejas asturianas (ALMEIDA, 1971).
Características Particulares:
O
columbário (sepultura familiar) é um exemplar raro em
território português. Junto à basílica existia uma
construção circular, a N. da actual capela,
provavelmente um baptistério, entretanto desaparecido,
descrito por Marques da Costa (1933), que ainda viu um "crismon"
pintado nas paredes da basílica, por ele interpretada
apenas como uma capela sepulcral.
Bibliografia:
APOLLINARIO,
Maximiano, Estudos sobre Tróia de Setúbal, in O
Arqueólogo Português, vol. 3, Lisboa, 1897; COSTA, A.
Marques da, Estudos sobre algumas estações da época
luso-romana nos arredores de Setúbal, in O Arqueólogo
Português, vol. 26, Lisboa, 1924, vol. 27, Lisboa, 1929;
vol. 29, Lisboa, 1933; SILVA, Carlos Tavares da,
CABRITA, Mateus Gonçalves, O problema da destruição da
povoação romana de Tróia de Setúbal, in Revista de
Guimarães, vol. 76, Guimarães, 1966; ALMEIDA, Fernando
de, MATOS, José Luís de, Frescos da Capela Visigótica de
Tróia, Setúbal", in Actas do 2º Congresso Nacional de
Arqueologia, vol. 2, Coimbra, 1971; ALARCÃO, Jorge,
Portugal romano, Lisboa, 1974; SOARES, Joaquina, Estação
romana de Tróia, Grândola, 1980; ALMEIDA, Carlos Alberto
Ferreira de, Arte paleo-cristã da época das invasões, in
História da Arte, vol. 2, Lisboa, 1986.
Intervenção Realizada:
Séc. 18, 2ª
metade - escavações patrocinadas por D. Maria I; 1850 -
a Sociedade Arqueológica Lusitana procede a explorações
em casas de habitação; 1924 / 1933 - escavações
dirigidas por Marques da Costa; 1948 / 1955 - Dr. Leite
de Vasconcelos; 1963 - início dos trabalhos
arqueológicos dirigidos pelo Prof. Manuel Heleno e Dr.
D. Fernando de Almeida; 1976 - assentamento de uma
estrutura metálica para defender os frescos da capela
paleo-cristã.
As Ruínas de Tróia
por António
Cavaleiro Paixão
CONJUNTO FABRIL DE CONSERVA DE PEIXE
A estação
arqueológica de Tróia constitui um dos mais
interessantes conjuntos fabris de conserva de peixe do
Império Romano. Construído nos inícios do séc. I d.C.,
manteve-se em plena actividade até, praticamente, ao
séc. IV d.C., momento a partir do qual entra num período
de irreversível decadência. Estendendo-se outrora por
uma faixa de quase 2 Km, este complexo conserveiro
mantém ainda uma apreciável densidade de construções,
testemunho da intensa actividade industrial e comercial
que nele se desenrolava. A origem do nome "Tróia" ainda
hoje permanece um mistério. A primeira referência a este
topónimo, de que há notícia, data do séc. XVI, e poderá
dever-se, tão-somente, à circunstância dos espíritos
cultos da época se sentirem tentados a assemelhar estas
ruínas à Tróia homérica, aliás, de latitude, cronologia
e natureza bem diversas.

INDÚSTRIA E COMÉRCIO
Tróia não
foi um ponto isolado no Ocidente europeu. Na verdade,
este centro conserveiro fazia parte de uma complexa
cadeia comercial que, centrada no Mar Mediterrâneo, o "Mare
Nostrum" dos Romanos, garantiu o fornecimento de
produtos do mar a todos os grandes núcleos populacionais
do Império, incluindo a própria cidade de Roma. Os
tanques de salga, de formato triangular e de diferentes
tamanhos, agrupados em núcleos independentes separados
por muros de alvenaria, destinavam-se a conter o peixe e
os ariscos obtidos no rio ou trazidos do alto mar. Aí
eram lavados, separados segundo as espécies, e salgados.
As vísceras, devidamente seleccionadas, a que eram
adicionadas ervas aromáticas de diferente natureza,
sofriam um tratamento de maceração e fermentação, delas
se obtendo o "garum", espécie de pasta ou molho que
servia para condimentar os alimentos. Acondicionado em
ânforas ou em vasilhas de menores dimensões, era
exportado para diversas partes do mundo romano, onde era
altamente apreciado, chegando, por vezes, a atingir
preços exorbitantes.
OUTROS ASPECTOS DO COMPLEXO ARQUEOLÓGICO
Para além
dos tanques de salga, revestidos de "opus signinum", de
que foram, até hoje, descobertos para cima de cinquenta,
é de assinalar a existência de uma área habitacional, de
um balneário, de três zonas de enterramento, e de um
núcleo religioso. A concorrência destes testemunhos de
diferente natureza, numa zona praticamente isolada, cuja
via de acesso principal seria a marítima ou fluvial, é,
já por si suficientemente elucidativa da importância que
este centro adquiriu na Antiguidade. Embora dependendo
do exterior para a obtenção de vasilhame, de produtos
agrícolas e pecuários, criou as estruturas suficientes
para assegurar a presença no local de uma população
activa responsável pela manutenção desta indústria
durante um período de, pelo menos, quatro séculos.
Basílica Paleocristã
Dos
edifícios religiosos destaca-se a basílica paleocristã.
De quatro naves, com forma irregular “… nas partes
conservadas das suas paredes vemos pinturas a fresco que
imitam mármores na mancha dos lambris. Nas partes
superiores, umas mostram-nos temas geométricos ,
polígonos ou círculos com aves e outras imitações
ilusionistas de remates de travejamento. No apoio da
cobertura havia, pelo menos, algumas arcadas
transversais, de que vemos alguns arranques decorados
com florões saindo de taças e um cantharus que já
arremeda os jarros litúrgicos do século VII. Desde o
crismon, que Marques da Costa nos deu a conhecer e
entretanto destruído, aos florões e aos temas
geométricos, vemos toda uma gama decorativa de
inspiração paleocristã que não nos parece anterior ao
século VI. Algumas sepulturas do tipo mensa, muito
evoluídas, cobertas por uma placa de mármore bordejada
de molduras de opus signinum, sem qualquer espólio no
interior, não desdizem desta datação, bem como o facto
de estarmos diante de um espaço funerário implantado
dentro dos limites da cidade romana. Mais tarde esta
basílica recebeu uma espécie de abside quadrangular
alteada, adaptando-se ao serviço religioso de então.”
(Carlos Alberto Ferreira de Almeida).
“O carácter religioso do local parece ser anterior à
construção da basílica. Aí foi exumado um políptico
esculpido que tem sido interpretado como uma
representação relacionado com o culto mitraico em que se
vê os deuses sol e Mitra (…) e fragmento de um sarcófago
de mármore branco…” (Carlos Tavares da Silva). O
culto mitraico com origem na Pérsia, chegou ao Ocidente
no decorrer do século II d.C., através das legiões
romanas, implantando-se entre os grupo económicos mais
abastados.
Necrópole
As
práticas de enterramento em Tróia permitem acompanhar um
período temporal que vai do século I d.C. ao século VI
d.C. e analisar a evolução dessas práticas e atitudes
mentais perante a morte.
Um primeiro momento leva-nos à prática de incineração
(queima dos corpos), comum a todos os povo indo-europeus
e na qual se incluem os romanos e as populações
indígenas da Península.
Esta prática está representada pela sepultura de Galla
(datada so século I d.C.), um monumento epigráfico que
se encontra no Museu de Arqueologia e Etnografia do
Distrito de Setúbal. Nestas sepultura as cinzas estavam
acompanhadas por uma taça de bronze, um púcaro de
cerâmica, dois ungentários em vidro, duas lucernas do
século I d.C. e instrumentos de toilete e de lavores
em osso. A partir do século II d.C. começou a impor-se
lentamente a prática da inumação (deposição do corpo)
como consequência da crescente influência das religiões
oriundas da Pérsia do Mediterrâneo Oriental, como o
culto Mitraico e o Cristianismo.
Está neste caso o fragmento do sarcófago, descoberto sob
a basílica paleocristã, onde está esculpida uma cena de
transporte do morto em carro de bois para um espaço
delimitado por uma rede e defendido por um animal feroz.

Datado de finais do século II d.C. ou do século III
d.C., o sarcófago, pela sua qualidade artística reflecte
a adesão dos grupos sociais mais abastados à nova
religião.
Próprio de um período com domínio da prática da inumação
é o mausoléu. Construído numa época em que o complexo
industrial já estaria em regressão e portanto com
fábricas abandonadas (talvez finais do século IV d.C.),
o mausoléu, de planta rectangular e paredes reforçadas
por contrafortes, tem o pavimento completamente
preenchido por sepulturas de inumação e nichos nas
paredes onde poderiam ter sido depositadas urnas.
Nas traseiras e na frente do mausoléu, encontram-se
igualmente espaços funerários. Não possuem cronologias
seguras para estas zonas funerárias. É possível que
tivessem sido utilizados numa época em que o complexo
industrial já estava em acentuado estado de abandono. No
espaço das traseiras foram utilizadas como urnas,
ânforas produzidas no final do império e no espaço da
frente do mausoléu utilizaram-se os próprios tanques
para os enterramentos.
Este momento ocorreu, possivelmente, no século VI,
quando o complexo industrial já não funcionava, sendo
Tróia habitada por pescadores que aproveitavam aquele
espaço para enterrar os seus mortos.
O carácter religioso do local manteve-se até aos nosso
dias através da capela de Nossa Senhora de Tróia.
